Novamente voltamos a este assunto, desta vez vindo de Cachoeiro de Itapemirim/ES, de uma ex-aluna da Pós Graduação, que trabalha na área da educação pública federal, indignada com as cotas raciais.
Teremos que distribuir o assunto por partes:
1. Porque já falei neste blog que o estudo deverá contemplar cotas raciais no Congresso Nacional, no Executivo, STF, Justiça, etc... Acredito que neste caminho irá empacar tudo.
2. Tenho uma visão diferenciada mais racional sobre esteas cotas, muito parecida com a da Maria Paula, e se não ficar muito grande concluirei com ela.
Vamos ao que importa que é o texto que ela me escreveu.
"Caros colegas,
Bom dia. Segue um texto sobre a continuação das discussões raciais.
Gostaria de frisar que não tenho problemas com nenhuma raça ou credo. Pode ser negro, branco, amarelo, vermelho ou se pintar de roxo, não me importa. Caráter não tem cor, e é isto o que importa dentro do ser humano.
Fica aqui somente uma pergunta: tenho lindos sobrinhos, 2 loiros e um ruivinho, e gostaria de perguntar: eles não estão sendo discriminados com estas cotas? E minhas amigas que se matam de trabalhar para pagar uma boa escola para seus filhos, não estão sendo discriminadas? Uma prima tem uma bela filha mulata, inteligentíssima, estudante de escola pública. A cota não seria diminuir seu esforço e inteligência? Ensino público de qualidade não seria continuar a incentivá-la?
Será que o caminho não seria melhorar a qualidade do ensino desde a sua base? Me lembro muito bem que o meu pai me dizia, quando eu era criança, que aluno que estudava em escola particular (na época dele, vamos deixar claro) era porque não era aceito em outras escolas públicas ou porque era do tipo "pagou passou". Grandes profissionais de minha cidade são oriundos de escolas públicas, e os que pude arguir sempre me garantiram que elas eram de excelente qualidade. Então por que não resgatar esta qualidade? Não seria mais justo? Até mesmo com as classes mais desfavorecidas?
Lembro de minha infância, onde em minha casa tínhamos uma pessoa muito amada que auxiliava minha mãe com as crianças e a casa, mas principalmente comigo. Ela era uma linda e pequenina moça negra, de voz macia e olhar angelical, o meu anjo da guarda na terra. Minha mãe sempre dizia que ela deveria continuar os estudos, que aquilo seria a condição para ela ficar conosco. Minha mãe não tem o segundo grau completo, mas é uma mulher muito inteligente e culta. O meu anjo terrestre formou-se em técnica de contabilidade e depois graduou-se em contabilidade. Aprendi desde menina que devemos dar chances para que as pessoas mostrem o seu potencial. A cor da pele do meu anjo nunca foi um problema para nós. Seu caráter sempre foi translúcido!
Leis não faltam, até mesmo dizendo das obrigações para com os cidadãos em matéria de ensino, mas por que elas não são cumpridas? E se são, por que sua qualidade caiu tanto? Houve uma época que professor ia de te rno e gravata para a sala de aula, era visto como um mestre realmente, tinha seu destaque na sociedade, afinal, era (e deveria continuar sendo) ele quem formava (e continua a formar) os cidadãos que governaram e os que herdarão este mundo, não é?
Amigos coloridos (sem qualquer sarcasmo ou conotação pejorativa), de todas as raças, sejam vocês amarelos, negros, brancos ou vermelhos, seus filhos não são incapazes para necessitarem de bolsa disto ou daquilo, o que eles precisam é de um ensino de qualidade para poderem mostrar o seu verdadeiro potencial. Não deixem que o governo escreva nas entrelinhas que eles são incapazes e, por isto, devem receber a bolsa como um " empurrãozinho"."
ESCOLA DE QUALIDADE PARA NOSSOS FILHOS, DESDE A TENRA INFÂNCIA ATÉ O NÍVEL SUPERIOR!
Cachoeiro de Itapemirim, 09 de fevereiro de 2012.
Paula Delmaestro Rosa.
Vou colocar o artigo do jornal que gerou esta indignação:
Ex-ministro da Justiça deve defender cotas raciais no STF
Márcio Thomaz Bastos foi convidado pelo ministro da Promoção da Igualdade Racial. Audiências públicas começam em março.UnB Agência
O advogado criminalista e ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos vai atuar em defesa do sistema de cotas raciais da Universidade de Brasília (UnB) no julgamento do Superior Tribunal Federal (STF). Bastos afirmou à UnB Agência que decidiu participar do processo por considerá-lo uma “causa justa”. “As cotas são um mecanismo importante de justiça social”, afirmou. “É o pagamento de uma dívida histórica”. O advogado participará do processo como amicus curiae, representando entidades que, embora não participem da ação, têm interesse na matéria. No caso do processo contra as cotas raciais da UnB, organizações sociais a favor e contrárias às cotas raciais têm direito de apresentar nomes de juristas que representem seu ponto de vista para participar do processo e, dessa maneira, subsidiar a decisão dos ministros do STF.
Os nomes devem passar pelo aval do relator do processo no STF, Ricardo Lewandowski, e, se aprovados, terão direito de se manifestar durante o julgamento do processo. O convite para participar do processo a Bastos foi feito pelo ministro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Edson Santos. Para o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior, a participação de Bastos fortalece a defesa das cotas. “Ele falará na condição de representante da sociedade e será uma expressão acolhida pelo STF. Isso significa que Tribunal quer ouvir o que ele tem a dizer sobre o tema”, analisa o reitor.
HISTÓRICO - Em junho de 2009, o Partido Democratas (DEM) entrou com uma ação no STF pedindo a suspensão do sistema de cotas na UnB, baseando-se no argumento de que, no Brasil, a exclusão do ensino superior decorre de problemas sócio-econômicos e não raciais – diferentemente do que acontece nos Estados Unidos e África do Sul. O DEM também sustenta que o sistema de cotas raciais em universidades reforça o preconceito racial e é inconstitucional. Na UnB o sistema de cotas foi implantado em 2005 como uma política pensada para durar dez anos. Ele prevê a reserva de 20% das vagas do vestibular para afrodescendentes. Além da UnB outras 80 universidades públicas do país possuem algum tipo de sistema de ingresso diferenciado para afrodescendentes. Para fortalecer a defesa das cotas, está sendo organizado um “abraço ao STF” em 2 de março, um dia antes das audiências públicas com pessoas interessadas no tema, promovidas pelo Supremo entre os dias 3 e 5 do próximo mês.
Segundo o ministro interino da Seppir, Elói Ferreira de Araújo, é importante que se faça uma ampla mobilização em defesa das cotas. “A tese que fundamenta a ação do DEM é contrária à justiça social e agride as políticas de promoção da inclusão como um todo” afirma Araújo. “Está em desacordo com o ambiente que vivemos nesse país, além de ser cruel em relação à nossa história de exclusão e desigualdade”, complementa o ministro interino, que participou de uma reunião com o reitor da UnB sobre o tema nesta quarta, 03 de fevereiro. José Geraldo analisa que a ação movida pelo DEM contra a UnB coloca em risco outros tipos de ações afirmativas que favorecem mulheres, deficientes, entre outros grupos sociais excluídos. “É fundamental que se perceba que esse tipo de política melhora o país ao promover a inclusão econômica e social”, defende.
Ótimo o texto da Maria paula para reflexão.
Gostaria de fazer uns comentários rápidos, uma vez que durante 12 anos estive ligado à Educação Superior e discordo desta política esmoleira.
A idéia é que esta república foi comprada e feita numa base oligárquica, opulenta e com falta de governo ou de outra autorida de capaz de manter o equilíbrio da estrutura política, social, econômica, daí criou-se uma dívida social impagável. Não vamos especular motivos.
Piora com a libertação dos escravos, que sem apoio foram lançados à própria sorte, o que não foi privilégio do Brasil, mas foi muito acentuado aqui.
Os homens públicos que passaram por esta república até os dias de hoje , apenas se locupletam com o que não lhes pertence, não resgatam a dívida social que cada vez está mais perto de um colapso.
Prova disto é o Sistema Previdenciário 80 x 20 (dos 100% arrecadados 20% atende 80% da população e 80% atende aos barnabés do governo que representam 20%), além do sistema de saúde, escola, transporte, habitação, saneamento, etc...
Para descaradamente dissimular esta situação desmoralizadora provocada por este descaminho continuado de valores (LADROEIRA segundo Aurélio), os artífices desta patifaria inventam estas imundícies criando um racismo no nosso país que nunca existiu tão acintosamente, criando cotas como se um burro cinza trabalhasse melhor que um burro preto ou branco.
Não acredito em nenhuma solução pacífica para este país, não acredito em bandeirinhas brancas em Ipanema pedindo paz, (paz a quem? Aos traficantes ou a polícia para deixá-los em paz?)
Portanto gosto da partida do seu texto. Este Márcio Thomaz Bastos tem algo "além de aviões no céu de Brasília".
Abraços,
Luiz Antonio